23.12.09

NATAL OUTRA VEZ (cont.)

Sonhei que não tinha dinheiro. Para prendas, para nada. Nem chavo. Assim as coisas teriam de passar obrigatoriamente por este lado: cumprir o ritual natalício com mais palavras. Mas já há palavras a mais. Foi até para tal fim que se inventaram os telemóveis: para manter as pessoas “contactáveis”. Facto que, a ser levado a sério, nos exigiria outro tratamento ao desprezado sentido do tacto. Adiante.
Mas como acastelar conjuntos de adjectivos, visitar algumas metáforas alusivas à quadra, perder também o meu pedaço de sensatez, embarcando, enfim, nesta voragem de rodopios mais ou menos carnavalescos, de luzes, de fatiotas, de fitinhas a reluzir em todas as esquinas, por dentro e por fora das nossas almas? Fico sempre despudorado, com a sensação de quem partiu, por querer, a asa de um anjo, retirando-lhe, desta feita, a oportunidade de cantar na Missa do Galo ou de convocar, por essa noite fria, os seus pastores, para o dever de ofício que os canteiros lhe deram, impondo-lhe os cânticos celestiais, as glórias e os hossanas que os homens organizados de hoje, tão dados a essa trapalhada confusa, mas utilíssima, a que chamam «markting», traduziram para a linguagem das novas tecnologias –o latim passou, é língua morta –o “english” dos supermercados, dos shopings, onde há um deus em cada prateleira, nunca escondido mas ali mesmo, generoso, à vista, se não mesmo em promoção, em carne e osso, um deusão a sério e não de plástico como também há muitos “made in China”.
Que é o chamado “espírito de Natal”? O amor da e à família? Não me gozem. Lá no fundo, bem no segredo do nosso íntimo, estamos todos a achar que somos uma data de “tansos”, a gastar presentes inúteis para quem os não merece e faz umas tremendas fitas a recebê-los, quem atravessa o seu deserto das tais « grandes superfícies» sem aquele requinte que se identifica no ar das mais brilhantes «madamas», loiras recentes de drogaria.
Não convoquemos os pobrezinhos para a nossa mesa de consoada que eles são os novos Profetas, os anunciadores desta nova Aurora, os mais procurados do sistema mediático, Pais-Natais de carne e osso, a que nada falta: travessas de poesia, vestimentas de romagem de amor puro e simples, mais rústico que todos os musgos dos presépios. Esses pobrezinhos, coitadinhos, ficam ricos, nestas alturas, por causa de tanta caridade, de tão boa consciência que escorre por eles abaixo…É por esta época que eu mais os invejo:nunca lhes falta nada por dentro e por fora do coração e fazem com que todos aqueles que, como eu, fingem que gostam muito dos pobrezinhos, se sintam de bem consigo mesmos e sejam ainda um pouco mais felizes.
Pronto. É claro que não vou mais esperar que o tempo sideral, cósmico, racional e abstracto, kronos, o tempo das ampulhetas electrónicas pare e nos devolva um Tempo primordial, solsticial, cíclico e recuperável, favorável, kairos! Só quero que Deus, o Senhor do Ser e do Nada, ou da Crise, da Vida e da Paz, vos faça um só favor, nesta quadra, vos conceda um suave presente: deposite na palma da vossa mão a música do silêncio!
E assim far-se-à uma Nova Luz de Natal. Um abraço amigo. José Melo

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